Além da Revolução
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Este é um texto para reflexão, e minha intenção aqui não é de dar respostas tão somente, mas sim instigar perguntas.
Estava assistindo televisão um dia destes, e parei num canal evangélico. O apresentador com o seu cabelo blackpower-o-retorno, apresentava os “clipes” musicais. Entre uma música e outra ele falava das novidades da galera gospel, e dos agitos evangélicos do fim de semana, os shows, os últimos “hits”… Comecei a pensar em como os tempos mudaram em apenas duas décadas.
Quando era um projeto de adolescente que se achava revolucionário, fazia parte de um grupo musical chamado “Novas Criações”, ou “Novas Confusões”, segundo o hoje Pastor Samuel Nascimento. Naquela época não se falava ainda em Banda Evangélica, ou muito menos gospel. Existiam os grupos… ou os conjuntos musicais, dependendo da igreja a que pertenciam. Um dia um dos grupos começou a ensaiar uma música nova. Um “Negro Spiritual”, tradicional americano. Depois de alguns dias de ensaio o grupo foi surpreendido por um aviso pastoral: Se eles viessem a cantar aquela música, seriam todos afastados do rol de membros da Igreja. Entendam que naquela época, palmas, bateria, e outros apetrechos tão comuns em nossos cultos hoje em dia eram “praticas subversivas e profanas”, coisa do diabo mesmo, segundo os “mais entendidos”. Freqüentemente aparecia um pastor ou outra pessoa falando dos “perigos” de permitir estas mudanças de ritmo em nossos cultos. Uns traziam literatura, outros umas vitrolas modificadas pra tocar discos de vinil ao contrário, onde espantosamente o diabo falava através das músicas…. mas isto é assunto para conversarmos depois…
Apesar de toda aquela crença comum, achávamos que não era bem assim. Não havia sequer respaldo bíblico concreto para tudo aquilo, apenas ranços culturais. E por crer desta forma, saíamos para trabalhar nas mais diferentes estratégias evangelísticas que podíamos imaginar. Nós acreditávamos que o evangelho tinha um inegável cunho revolucionário. É transformação, mudança de mente. É claro que, como bons revolucionários, nem sempre acertávamos na maneira de executar os nossos “planos mirabolantes”, e muito embora, a intenção fosse boa, a execução muitas vezes era péssima…
Por exemplo, no Carnaval ou Micaretas, em vez de irmos ao retiro passamos a ficar acampados primeiro no Instituto Batista, e depois na Igreja, fazendo evangelismo durante os dias de folia. Fazíamos teatro nas ruas, distribuíamos água de graça, montávamos até um pequeno ambulatório para atender as pessoas, tudo para ter uma chance de conversar com elas, e falar de Jesus. Nos primeiros anos, isto era prática subversiva, extremista diziam alguns. Mas voltávamos dos Impactos trazendo gente nova que tinha aceitado a Jesus Cristo ali, durante os trabalhos. Gente com experiências dramáticas de conversão, e sinais verdadeiros de genuína mudança. O que contou muito é que nosso pastor apesar de nos conhecer, acreditava em nós, e nos apoiava. Pouco a pouco, outros foram se juntando e juntando… e um belo dia, sem brigas, sem contenda, sem divisão, a Igreja em grande número estava lá trabalhando. O que era subversivo, tornou-se comum.
Mas hoje, quem se lembra dos discos ao contrário ? Quem se lembra das proibições, dos tabus ? Pelo menos dos antigos, poucos. Os anos passaram e fizeram o seu trabalho. Os que condenavam isto ou aquilo se foram. Mas as estratégias revolucionárias também se foram. Hoje não funcionarão mais como funcionavam a 15 ou 20 anos atrás. Precisamos de idéias revolucionárias para os nossos dias, outras mentes, que não se conformem com este mundo. Mas como ser revolucionário nestes dias ? Como estar sempre na vanguarda sem ser ou tornar-se medíocre ? A grande questão é que em geral nos contentamos com meias revoluções, como fizeram a grande maioria dos revolucionários. Queremos mudar isto, sem mudar aquilo, e o evangelho não é lugar de meias mudanças, para serem de fato genuínas elas devem ser integrais. Não podem existir verdadeiras revoluções econômicas, sem revoluções sociais, e como pode existir uma verdadeira revolução social sem uma revolução espiritual?
Onde a igreja não tem chegado? Ou tem chegado de maneira medíocre? O que não foi feito ainda, mas se fosse traria avanço no processo de implantação do reino de Deus na terra? Quais são os campos ainda a serem desbravados? E acredite ainda existem muitos.
Acredito que a Igreja que cumprirá este papel e atingirá as últimas fronteiras, terá esta sensibilidade de arriscar mais e a capacidade de ser mais revolucionária que os revolucionários. Afinal de contas há revolução maior do que ser santo num mundo corrompido?




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Realmente! Hoje só resta o saudosismo? O que a juventude tem feito?
08 de dezembro de 2008 às 18:39